Os pelos das minhas pernas e a liberdade feminina

Quem nos disse a nós mulheres que não podemos ter pelos nas pernas, nas virilhas, nas axilas, no buço?…

Quem nos disse a nós mulheres que temos de usar soutien?

Quem nos disse a nós mulheres que temos de usar o cabelo comprido ou andar sempre arranjadas?

Quem nos disse tudo isto? E porque aceitamos tudo sem questionar?

Muitas destas “regras” estão de tal maneira inseridas nas nossas mentes que acabamos por nos sentir mal se não as “cumprimos”.  Para além de acharmos que nós não podemos andar assim, muitas vezes julgamos também outras mulheres porque têm pelos aqui ou ali, porque vestem assim ou assado…

Tudo isto nos foi imposto. Nós não escolhemos, ao contrário do que pensamos, e por vezes achamos ser uma verdade única, quase um dogma!

A verdade é que nós podemos questionar! Podemos escolher, podemos ser livres.

O nosso corpo é apenas um corpo, ele não somos nós. Ele é a imagem, a nossa imagem. Ninguém escolhe o corpo, os pelos, o cabelo, a pele. Tudo isso deve ser aceite por nós e pelos outros.

A natureza é sábia nas suas criações e criou-nos assim por algum motivo. Porquê não aceitar?

Acho que somos o único animal que não se aceita tal como é. Já imaginaram um gato querer cortar as barbas porque acha que lhe ficam mal? É ridículo, mas nós, seres humanos,  fazemos isso!

Quase todos os pelos têm uma função. E se não têm já tiveram, no passado, fruto da nossa herança enquanto espécie. Então desde quando se lembrou o ser humano que os devia tirar? Pelo menos desde a época romana em que já aparecem pinças. E existem gravuras da época medieval que mostram mulheres a retirarem pelos também com pinças. Creio que foi uma ideia infeliz. Foi o inicio da não aceitação do nosso corpo tal como ele é.

 

As minhas experiências – os pelos e o soutien

Desce criança, muito cedo, eu ouvia dizerem-me que eu tinha pelos nas pernas. “Eita, tantos”! E também nos braços. E sofria com isso. Olhava para eles e não gostava. E questionava porquê. Porque tinha de os ter.

Então, por volta dos 11 anos, ou antes, eu fiz a depilação às pernas. Foi com cera quente. Doeu horrores, tanto sofrimento! Era apenas uma criança e já carregava tudo aquilo que a sociedade impõe a uma mulher. Cruel, não?

Também cheguei a fazer o mesmo aos braços, mais tarde, em adolescente, e nem vos digo o quanto doeu! Houve uma altura que não usava camisolas sem mangas para ninguém ver que eu tinha pelos nos braços. Tudo fruto da modelação das nossas mentes.

A caminhada para a libertação destes preconceitos é longa e difícil. O mesmo acontece com os soutiens. Durante a amamentação do meu filho deixei de usar  soutien. Deu-me muito jeito porque não tinha de andar sempre a tirar e a meter aquelas alças. Não imaginam como é libertador. Sim, é possível que me estejam a julgar! Neste momento já nem me lembro da última vez que o usei. É provável que ainda volte a usar, mas não como se fosse uma regra. Talvez para resguardar a minha intimidade quando usar alguma roupa mais larga ou mais decotada.

Há umas semanas atrás ia sair mas não me apetecia usar calças. Queria vestir uma saia. Mas tinha pelos nas pernas. “Ok, vai assim”, pensei. E fui! Saí à rua de saia e com pelos nas pernas. E vi várias mulheres a olharem para as minhas pernas com um ar reprovador. Entretanto já repeti a façanha e nem me preocupei com o olhar dos outros.  Isto era algo que não faria há uns tempos atrás. Era também para mim impensável. Mas finalmente estou a libertar-me. E é indescritível poder viver assim, com mais aceitação. Não é fácil, sobretudo por ver e sentir a reprovação da sociedade. Mas creio ser este o nosso caminho.

 

Não há escolhas certas nem erradas

Este é o caminho para a verdadeira liberdade feminina. Porque nós, mulheres, não viemos aqui para agradar a ninguém, nem a homens nem a mulheres.

Porque nós mulheres não temos de seguir convenções sociais no que diz respeito ao nosso corpo. Ele é apenas nosso.

Não, não há mal nenhum em querermos cuidar de nós, em nos arranjarmos. Eu não quero com isto dizer que há certos ou errados. Porque não há. Quero apenas lembrar que podemos questionar, que podemos escolher, que tenhamos consciência das amarras invisíveis que nos são impostas.

Lembrar que podemos ser livres, nós mulheres. E que antes de mais, devemos pensar em nós e naquilo que realmente faz sentido para cada uma.

Sim, tenho pelos nas pernas! Sim, tenho pelos nos braços! E daí? Isso altera o meu eu, a minha essência? Altera aquilo que sou? NÃO

 

Os pelos das minhas pernas

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